sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Conversando com Nikki Stern

Por Guilherme

A americana Nikki Stern escreve regularmente para alguns dos principais jornais e revistas de seu país, como o The New York Times, a Newsweek e a excelente The Humanist. Seu primeiro livro, Because I Say So: the dangerous appeal of moral authority (Porque sou em quem diz isso: o perigoso apelo da autoridade moral, sem edição no Brasil), trata do perigo a que estamos expostos quando substituímos a razão pelos pensamentos falhos, sem embasamento ou vindos de falsas autoridades (nesse grupo você pode incluir celebridades, líderes "espirituais", militantes políticos, etc. etc. etc.). O segundo livro de Stern é Hope in Small Doses (Esperança em pequenas doses, sem edição brasileira), uma discussão sobre a possibilidade de alguém ter esperança e enfrentar a adversidade sem apegar-se a pensamentos mágicos.  A autora, que perdeu o marido no atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2011, tirou da tragédia a inspiração para escrever as duas obras.
Entramos em contato com Nikki, que gentilmente respondeu aos nossos questionamentos sobre os seus livros preferidos, a importância da leitura e o papel do pensamento crítico na nossa vida cotidiana.

Página Virada: O que você está lendo agora?
Nikki Stern: No momento, estou lendo The Lost Memory of Skin, de Russell Banks. É um livro sobre um tema difícil – predadores sexuais – mas traz também um olhar excelente sobre o péssimo modo com que o sistema americano funciona. E é de Russell Banks, o que significa um realismo evocativo.

PV: Quais livros a influenciaram?
NS: Eu leio muito. É difícil de dizer, e pode ser mais fácil mencionar alguns autores. Kurt Vonnegut foi uma grande influência em minha mente, e também na minha escrita; Alice Hoffman (amo seu estilo sonhador); Mark Twain (estou me preparando para reler muitas de suas coisas) e, mais recentemente, Rebecca Skloot (The Immortal Life of Henrietta Lacks – obs: obra publicada no Brasil como A Vida Imortal de Henrietta Lacks, pela Companhia das Letras) porque ela faz a não-ficção e a ciência realmente interessantes de se ler.

PV: Por que você pensa que é importante ler?
NS: A leitura abre sua mente e traz o mundo até você. Ela fomenta a curiosidade e faz com que você queira conhecer mais. Enquanto você for curioso, você estará interessado na vida, não importa o quão difícil ela se torne.

PV: É possível fazer com que as pessoas leiam mais? Como podemos fazer isso?
NS: Creio que você tem que ensinar às crianças o valor e o poder não só da informação, que você pode conseguir na internet, mas das palavras. Nas mãos de um habilidoso autor ou orador, as palavras podem influenciar, iluminar, entreter e questionar. O ato de ler é fácil, de amplo acesso, é incrivelmente libertador e te dá uma vantagem sobre os não-leitores. Eu admito que não entendo as pessoas que dizem não terem tempo para ler, pois essa tem sido minha atividade preferida por quase toda a minha vida.

PV: Você escreve para a The Humanist, uma revista que lida com o livre pensamento e a racionalidade, coisas que estão se perdendo em nossa sociedade nos dias atuais. Por que você acredita ser importante encorajar o pensamento crítico?
NS: É importante que nós, humanos, reconheçamos tanto nossas forças quanto nossas limitações. Umas delas é a inabilidade para conhecer algo com absoluta certeza, especialmente quando estamos lidando com as grandes questões. Em outras palavras, quanto maior a questão (“qual é o sentido da vida” versus “o quanto de sono é bom para mim?” – essa última você provavelmente responderia com alguma segurança), menos nós podemos estar absolutamente certos de que conhecemos a resposta. A outra é que nossos cérebros algumas vezes cometem erros. Nós nos enganamos, cometemos erros cognitivos. Novamente, não somos perfeitos. Mas não há problema nisso.
        O pensamento critico ajuda você a navegar pelas toneladas de informação que chegam até você para, primeiro, priorizar, e, segundo, reexaminar e refletir. Nós automaticamente mensuramos as novas informações, especialmente aquelas que se referem a nossas crenças estabelecidas, contra essas crenças, mas isso não é bom o suficiente para dizer “sim, estou de acordo”, ou “não, não é assim”. Nós não aprendemos nada dessa maneira, e assim não crescemos ou evoluímos. Me considero uma pessoa progressista e, assim, apoio a evolução. Tenho confiança suficiente, tanto na ordem natural das coisas quanto nos humanos, para crer que a evolução humana geralmente ocorrerá em uma direção positiva. Creio em regras e limites; penso que isso ajuda a sociedade a trabalhar de modo mais coeso. Mas acredito, do fundo do coração, que as crianças deveriam ser ensinadas a pensar com cuidado e, sim, a questionar educadamente antes de aceitar algum conceito, ideia ou crença somente porque eles ouviram de seus amigos ou parentes, ou leram sobre isso na internet. O partido político no Texas que se posicionou, em sua plataforma, contra o ensino do pensamento crítico em escolas (dá para acreditar nisso?) porque ele ensina as crianças a “questionar a autoridade”, está vindo de um lugar cheio de medo e retrocesso. Ele teme a mudança e aparentemente não confia que as pessoas, mesmo as crianças, possam evoluir. Isso é triste e limitante.

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